sexta-feira, 27 de abril de 2018

Rascunho



O quarto do rei encontrava-se vazio e de janelas abertas!

O corpo que deveria ocupá-lo vagava nos corredores sobremuros que ligavam as torres de vigilância do castelo.

Não sabia o que o mantinha acordado! Pelo menos não especificamente.

Devia ser o conjunto, o amontoado de problemas e não apenas um deles de forma isolada.

A lua brilhando, sem nuvens que a protegessem do olhar dos humanos, assim como seu reflexo – trêmulo e luminescente - no espelho d'água, afastado das muralhas apenas pelo Pequeno Vale, por vezes o distraía, tirando o foco dos reais problemas que o levaram até ali. Poderia chorar...

“Por vezes, tempos de paz acabam por ferir-nos mais que a guerra. Não há o que, ou em quem descarregar ou vingar algo. Todas as feridas são solitárias. E tão profundas que nenhum unguento ou poção possam alcançar” - Devia chorar...

O rei desejava que seu pensamento não tivesse mergulhado tão profundamente dentro de si naquela noite. Gostaria sim de enfrentar seus fantasmas um a um e eliminá-los individualmente de sua mente. Mas não esperava aquela batalha covarde na qual fora atacado e cercado por todos ao mesmo tempo, circundando-o de todos os lados, de forma que não houvesse possibilidade de recuo. Precisava chorar...

Já no solstício seguinte, se completaria o segundo ano sem seu principal escudo e proteção a estes ataques: Sua rainha havia partido através da única grande estrada que não admitiria jamais o retorno de seus viajantes e o deixara a incumbência de ser também o responsável, ou entregar em mãos estranhas a educação de seus herdeiros, príncipe e princesas, que o peso do seu título não permitiria priorizar...

Queria chorar!

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Ritmo

Atas, pautas, memorandos,
Laudas, mails, tantos campos...
Num corpo sem saúde,
Uma alma sem vez.

Estudar línguas e linguagens
Mandarim, alemão, internetês...
Muitas horas, pouco tempo
Um relógio impaciente.

Já não sei o que é o relento
Sem direito de ser gente.
Faço do corpo um motor
Perda de tempo pensar em amor.

O mundo cobra, eu pago
Ignoro o estrago
De ser máquina, não humano
Acumular bens, eis o plano

Importância
Os amigos parecem não ter
Num mundo
Onde possuir mais vale que ser

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Reflexão

Rebuscando a memória, acabei de perceber que os momentos que realmente valeram à pena no passado, e que me fazem ter saudade e dizer: 

"Cara, éramos felizes e não sabíamos!"

são aqueles em que se eu 

"tivesse um pouquinho de consciência" 

não teria feito pq era preciso economizar, trabalhar, dormir, produzir...

Que bom que meus olhos estavam tão abertos naqueles momentos quanto estão agora.

Pq se eu tivesse morrido ontem, mês passado, ano passado... 

Ainda assim minha vida teria mais valido à pena do que se tudo eu tivesse construído, mas nada tivesse vivido!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

A Estrela-do-mar

O verde mar se fecha
Sem navios a navegar
Foi-se o vento
Não mais velas
Nem bandeiras a bailar

Haja o fim de mais um dia
Vejo estrelas a brilhar
Longa estrada, Romaria
Sem companhia no além-mar

Dos amores me recordo
De tantas outras solidões
Dos meus versos, grosso modo
Meus acordes e canções

Foi-se a paz com mais um choro
O teu rosto em lembrança
Me refaço como um todo
Meu próprio par, penosa dança

Tenho a lua como guia
Mas subir não me convém
Já não tenho alegria
Só, me visto de ninguém

Tempo tenho em demasia
Mas não tenho o que sonhar
Jamais soube o que sentia,
Na escuridão, a estrela-do-mar

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Passarada

Ao som
Do violoncelo
Selo e monto
Minha alma

Com a destreza
De um magrelo
Sem peito
Rosto amarelo
Mas com farta
E gorda calma

Tomo as rédeas
Coração
À âncora
Da mente
Que diz não
Renego
Em gargalhadas

Sem forma
Fome ou fonte
De renda
Rendo-me
À estrada

Na bagagem
Solidão
Mas tristeza
Levo não
De passagem
Passarada

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

No seio do caminho ou No colo do Mundo

O colo do inimigo
Tão hostil quanto
O do falso amigo
É nele que me deito

Em nenhum deles me deleito
Apenas descanso
No primeiro peito
Que no caminho encontro

Num mundo de desencontros
Que não mais espalha os contos
Permitindo que a cada canto
Se semeiem os desencantos

Nos permitimos o desluxo
Mergulhamos em abismos
Apreciamos o lixo
Cumpliciamos abusos

Neste peito e nesse mundo
Nesse mundo e neste peito
Embora me sentindo imundo
Sigo buscando respeito

E

Quando enfim me levanto
O pó digno-me a sacudir
Já não me cabe o pranto

O que resta é partir

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Sem Tidos

Sinto na pele o amargo das tuas palavras
Vejo dor no teu canto
O gosto sem cor do teu pranto
Ouço as cicatrizes que a cegueira te infligiu

O som do teu choro não me desce na garganta
Já não sinto gosto do que levas na cabeça
Meus olhos agitados com as palavras que cantas
Sinto a derme arranhar com o teu cheiro de tristeza

Nos sentidos não vi sentido
Nossas almas não se tocaram
As idéias se perderam
E os corpos se isolaram